
Antes de ontem tive a pior noite desde aquele dia. Não que me doesse mais o corpo, mas porque não me saía da cabeça aquela manhã… a manhã em que tive “a minha vida de pernas para o ar”, num jeito menos romântico que a do Ricardo Azevedo e o seu “Pequeno T2”. Consegui-a lembrar-me de tudo, com mais ou menos nitidez. Apesar de não ter nenhum flash back que me fizesse saltar da cama, as imagens ganharam uma ordem cronológica e o filme não me deixou dormir.
Quando vemos na televisão um carro a capotar, pensamos sempre que, se algum dia passarmos por aquela infelicidade, agiremos de uma determinada maneira. Mas a verdade é que isso acaba por não acontecer, pois como diz quem já passou por essa situação, é tudo muito rápido. E é mesmo.
Perdi o controlo do carro. Nunca tal me tinha acontecido, mas percebi logo que ia bater. Não sei se foi da água da chuva ou do óleo na estrada devido a outros acidentes. Já tinha passado por dois, a poucos quilómetros e, segundo soube, depois, estava outro acidente a poucos metros de onde tudo aconteceu, comigo.
Nunca entrei em pânico. Nem mesmo quando, após o carro bater no separador central, capotou. Não contava… que isso acontecesse, não contava! Ouvi o airbag disparar e a esvaziar. Enquanto o carro deslizava a grande velocidade pelo separador central, com as rodas para o ar, aproveitei para mexer no airbag e concluir que enche e esvazia muito rápido para que não sufoque a pessoa acidentada. Algumas imagens passaram-me pela cabeça… talvez três situações em concreto, mas sinceramente já nem recordo bem do que me lembrei.
Lembro-me, sim, de mentalmente, pedir para o carro parar de vez. E parou. Não me lembro em que estado fiquei, como me endireitei, só sei que queria sair dali e comecei a mexer, à minha volta, para tentar abrir a porta ou o vidro. E não conseguia... mas alguém apareceu do lado do pendura e falou comigo pela janela que se tinha partido. Perguntou-se se estava sozinho, se me conseguia mexer, se me doía alguma coisa. Respondi-lhe e disse “Ajude-me, por favor”. Ajudou, sem saber quem era, sem pedir algo em troca. Parou em plena auto-estrada, arriscou até ser abalroado por algum condutor menos atento, para ajudar alguém que nem se quer sabia se estava vivo. Saí do carro pela janela do pendura… felizmente não tinha nada partido e conseguia mexer-me bem.
Foi isso que mais me sensibilizou. O facto de um grupo de pessoas, desconhecidas para mim e entre si, terem parado para me ajudar, para me amparar, para chamarem a ambulância e ligarem para os meus familiares. Nunca desmaiei, não perdi a consciência, não vomitei. Acho que perdi a noção do tempo, isso sim. Senti-me cansado. Queria deixar-me ir abaixo, mas duas pessoas agarraram-me. Olhei para o carro, uma só vez, e mal o vi desfeito em cima do separador central. De um lado para o outro corriam algumas pessoas a apanhar alguns pertences meus que, possivelmente, deverão ter “voado” do carro.
Nunca fixo o nome das pessoas, mas lembro-me do nome do Bombeiro que me deu assistência a caminho do Hospital. Acho que teria decorado o nome de todas aquelas pessoas que me ajudaram, caso se tivessem apresentado. Talvez seja nas horas de maior aflição que estamos mais aptos a criar laços de afecto e a não nos esquecermos das pessoas… No Hospital, a forma como me trataram não podia ter sido melhor. Em todos os departamentos, fossem médicos ou auxiliares. Até mesmo os Guardas da GNR foram impecáveis. Penso que na minha terra Natal as coisas não costumam ser assim…
Estive sempre calmo, mas chorei duas vezes, confesso. A primeira vez foi assim que cheguei ao Hospital e me lembrei da minha sobrinha. Tive medo de nunca mais a ver, de não a poder ver crescer. A outra vez foi quando o Guarda da GNR me disse que o meu carro, que o tinha há 3 meses, não teria mais arranjo.
Para os mais crentes, o que me aconteceu foi um milagre; para os mais cépticos, foi pura sorte. A verdade é que, para além de sobreviver, não parti nada e só tive alguns arranhões enquanto o carro foi para a sucata (o pior tornaram-se as dores físicas que só começaram a chegar depois…). Não me consigo esquecer da quantidade de vezes que me disseram “Tiveste muita sorte!”. Foi depois de sair do carro, foi dentro da ambulância, foram os médicos que me disseram, foram os Guardas da GNR… mesmo com todo o mal que aconteceu, tive sorte! Parece quase irónico. Sinto que ganhei uma segunda oportunidade para viver e agora fica-me mal pedir o Euromilhões!
E é nestas alturas que se vê quem são os verdadeiros amigos. Aqueles que, de uma forma ou de outra, sabem o que de pior nos aconteceu e entram em contacto, telefonam, mandam mensagem, mostram-se preocupados com o nosso bem-estar. Esses, jamais esquecerei.
É sempre nesta altura, na época natalícia, que nos lembramos daqueles que, por obrigação, tratam das pessoas, as ajudam, as apoiam. Falam dos médicos, dos bombeiros, dos polícias. Mas a verdade é que vai havendo pessoas que se preocupam com os outros. Talvez devido às circunstâncias da vida vamos começando a desconfiar dos outros, a não acreditar em quem não conhecemos. Talvez sejamos boas pessoas por natureza. Nós e os outros. Graças a isso, ainda vão havendo heróis e, a cada dia que passa, deveríamos estar mais atentos pois poderemos transformarmo-nos num herói na vida de uma pessoa.