segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Regresso à rotina


Há umas semanas atrás, comenta com uma colega que estava a precisar de férias. Não era isso que o meu corpo pedia, mas a minha alma e o meu espírito, sim. Férias do dia-a-dia, do local de trabalho, das pessoas. Principalmente das pessoas, não daquelas que nos são mais próximas, mas das outras, ignorantes, mesquinhas, snobs, que querem saber sempre mais do que àquilo a que têm direito... pessoas utopicamente superiores!
Às vezes, uns tempos fora, faz bem. Para limpar a alma... Deixar-nos com vontade de voltar, ter saudades do trabalho, do tempo que é sempre pouco, de ter a vida sempre ocupada. E, quando se é forçado a ficar longe, o regresso é sempre melhor, mais sentido...
Hoje voltei. Foram duas semanas de ausência. Tinha saudades, sim. E agora a promessa era que o ritmo intenso estava de volta. Mas algo foi mais intenso do que isso... O carinho, a demonstração de preocupação, as palavras amigas, os abraços, os sorrisos... tudo! Fiquei feliz; aliviou-me as dores. Senti-me acarinhado. Senti-me especial.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

A vida de pernas para o ar


Antes de ontem tive a pior noite desde aquele dia. Não que me doesse mais o corpo, mas porque não me saía da cabeça aquela manhã… a manhã em que tive “a minha vida de pernas para o ar”, num jeito menos romântico que a do Ricardo Azevedo e o seu “Pequeno T2”. Consegui-a lembrar-me de tudo, com mais ou menos nitidez. Apesar de não ter nenhum flash back que me fizesse saltar da cama, as imagens ganharam uma ordem cronológica e o filme não me deixou dormir.

Quando vemos na televisão um carro a capotar, pensamos sempre que, se algum dia passarmos por aquela infelicidade, agiremos de uma determinada maneira. Mas a verdade é que isso acaba por não acontecer, pois como diz quem já passou por essa situação, é tudo muito rápido. E é mesmo.

Perdi o controlo do carro. Nunca tal me tinha acontecido, mas percebi logo que ia bater. Não sei se foi da água da chuva ou do óleo na estrada devido a outros acidentes. Já tinha passado por dois, a poucos quilómetros e, segundo soube, depois, estava outro acidente a poucos metros de onde tudo aconteceu, comigo.

Nunca entrei em pânico. Nem mesmo quando, após o carro bater no separador central, capotou. Não contava… que isso acontecesse, não contava! Ouvi o airbag disparar e a esvaziar. Enquanto o carro deslizava a grande velocidade pelo separador central, com as rodas para o ar, aproveitei para mexer no airbag e concluir que enche e esvazia muito rápido para que não sufoque a pessoa acidentada. Algumas imagens passaram-me pela cabeça… talvez três situações em concreto, mas sinceramente já nem recordo bem do que me lembrei.

Lembro-me, sim, de mentalmente, pedir para o carro parar de vez. E parou. Não me lembro em que estado fiquei, como me endireitei, só sei que queria sair dali e comecei a mexer, à minha volta, para tentar abrir a porta ou o vidro. E não conseguia... mas alguém apareceu do lado do pendura e falou comigo pela janela que se tinha partido. Perguntou-se se estava sozinho, se me conseguia mexer, se me doía alguma coisa. Respondi-lhe e disse “Ajude-me, por favor”. Ajudou, sem saber quem era, sem pedir algo em troca. Parou em plena auto-estrada, arriscou até ser abalroado por algum condutor menos atento, para ajudar alguém que nem se quer sabia se estava vivo. Saí do carro pela janela do pendura… felizmente não tinha nada partido e conseguia mexer-me bem.

Foi isso que mais me sensibilizou. O facto de um grupo de pessoas, desconhecidas para mim e entre si, terem parado para me ajudar, para me amparar, para chamarem a ambulância e ligarem para os meus familiares. Nunca desmaiei, não perdi a consciência, não vomitei. Acho que perdi a noção do tempo, isso sim. Senti-me cansado. Queria deixar-me ir abaixo, mas duas pessoas agarraram-me. Olhei para o carro, uma só vez, e mal o vi desfeito em cima do separador central. De um lado para o outro corriam algumas pessoas a apanhar alguns pertences meus que, possivelmente, deverão ter “voado” do carro.

Nunca fixo o nome das pessoas, mas lembro-me do nome do Bombeiro que me deu assistência a caminho do Hospital. Acho que teria decorado o nome de todas aquelas pessoas que me ajudaram, caso se tivessem apresentado. Talvez seja nas horas de maior aflição que estamos mais aptos a criar laços de afecto e a não nos esquecermos das pessoas… No Hospital, a forma como me trataram não podia ter sido melhor. Em todos os departamentos, fossem médicos ou auxiliares. Até mesmo os Guardas da GNR foram impecáveis. Penso que na minha terra Natal as coisas não costumam ser assim…

Estive sempre calmo, mas chorei duas vezes, confesso. A primeira vez foi assim que cheguei ao Hospital e me lembrei da minha sobrinha. Tive medo de nunca mais a ver, de não a poder ver crescer. A outra vez foi quando o Guarda da GNR me disse que o meu carro, que o tinha há 3 meses, não teria mais arranjo.

Para os mais crentes, o que me aconteceu foi um milagre; para os mais cépticos, foi pura sorte. A verdade é que, para além de sobreviver, não parti nada e só tive alguns arranhões enquanto o carro foi para a sucata (o pior tornaram-se as dores físicas que só começaram a chegar depois…). Não me consigo esquecer da quantidade de vezes que me disseram “Tiveste muita sorte!”. Foi depois de sair do carro, foi dentro da ambulância, foram os médicos que me disseram, foram os Guardas da GNR… mesmo com todo o mal que aconteceu, tive sorte! Parece quase irónico. Sinto que ganhei uma segunda oportunidade para viver e agora fica-me mal pedir o Euromilhões!

E é nestas alturas que se vê quem são os verdadeiros amigos. Aqueles que, de uma forma ou de outra, sabem o que de pior nos aconteceu e entram em contacto, telefonam, mandam mensagem, mostram-se preocupados com o nosso bem-estar. Esses, jamais esquecerei.

É sempre nesta altura, na época natalícia, que nos lembramos daqueles que, por obrigação, tratam das pessoas, as ajudam, as apoiam. Falam dos médicos, dos bombeiros, dos polícias. Mas a verdade é que vai havendo pessoas que se preocupam com os outros. Talvez devido às circunstâncias da vida vamos começando a desconfiar dos outros, a não acreditar em quem não conhecemos. Talvez sejamos boas pessoas por natureza. Nós e os outros. Graças a isso, ainda vão havendo heróis e, a cada dia que passa, deveríamos estar mais atentos pois poderemos transformarmo-nos num herói na vida de uma pessoa.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Ainda há estrelas no céu


Chegou o Outono, as folhas começaram a cair, a chuva regressou. Não tínhamos propriamente saudades de ver a água a cair do céu, pois as noites quentes de Verão não foram eternas e imaculadas. E, quando era suposto os campos ficarem secos pelo tempo característico daquela época, choveu!
As gavetas, geralmente cheias até meio pelas roupas de malha ou licra, são atafulhadas pelas roupas grossas de lã que nos prometem aquecer nos próximos tempos. E a chuva que prometia cair e nunca mais parar, abrandou. O sol voltou a rasgar o céu, mas já não aquece.
Nos últimos dias ficou a incerteza do chove, não chove. Não se sabe se o casaco perdido no armário é para vestir... mas é melhor. O tempo arrefeceu e até parece que faz doer os ossos! As noites, essas, parecem ter trazido as estrelas de verão. O céu varreu as nuvens e elas estão lá, imponentes. O ar gelado faz com que a vontade de sair para observar o céu seja nula. Mas, embrulhado numa manta no quente da casa, sabe sempre bem observar o céu estrelado pela janela. Ou, para quem não se importar com o frio e gostar de sentir a liberdade da noite, pode sempre ir para a varanda pensar na vida à espera que uma se transforme em estrela cadente.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Atrás do vazio...


A prática do exercício físico é algo que deveria ser constante na vida de uma pessoa. Contra a obesidade, contra o sedentarismo, contra a falta de saúde! Há várias formas de o praticar: seja em casa, na rua ou num ginásio. Há até quem prefira aquelas "maquinetas" saídas das Televendas e que, mesmo sentado no sofá, faz exercício!
O mais comum é a adesão ao ginásio onde se pode fazer de tudo um pouco, desde a passadeira à piscina (dependendo do plafond de cada um, claro!). Enquanto que na rua, quando o tempo está para isso, a prática desportiva é mais agradável às vistas, no ginásio, ao olhar-se para as máquinas e para os outros a praticar a mesma prática, as pessoas parecem cobaias! No jardim, corre-se à volta da natureza, à vontade, em contacto com o ambiente e sem limites; no ginásio, corre-se sempre no mesmo sítio, atrás do vazio...
E, as razões para se frequentar o ginásio, são muitas; ou então é, basicamente, para perder uns quilos! O importante é não cometer excessos, não fazer do exercício físico uma obsessão. Há que se ser consciente e saber quando se está a ir longe de mais, quando o corpo já não aguenta, quando pede alimento e não lhe damos. Aí, deixa de ser saudável e o exercício físico passa da tortura física... e o vazio estará dentro de nós!

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Tempo para tudo... e para mais alguma coisa!


É incrível como há gente que gosta de ter tempo para tudo e que faça disso uma rotina diária; que goste de não fazer nada e ter dinheiro ao fim do mês; que goste, em suma, de ver o tempo a passar quase lentamente. Para mim, é uma tortura!
Devido a reestruturações que ainda não percebi muito bem onde vão parar ou o que vai acontecer, passei, de um momento para o outro, a ter imenso tempo para fazer tudo... mas no local de trabalho! Pronto, fico aqui quietinho no meu lugar à espera que se decidam, a olhar para o relógio e a ver os sites do costume que já não têm mais nada para me mostrar (de tantas as vezes seguidas que passo por lá!).
Passando à frente neste episódio, e passando para algo mais geral, muitos são os que vivem do Rendimento Mínimo e que se "orgulham" disso. Acham que é um direito não fazere nada e, ainda por cima, serem remunerados por isso! Mas o que mais me surpreende é como é que conseguem. Será possível não se sentirem uns inúteis? Não pensam que essa não é a lógica (normal) das coisas? O que pensarão essas pessoas?
Ter tempo para tudo é bom, está claro, mas quando é uma novidade, quando é um "escape" ao habitual dia-a-dia, quando nos permite fazer tudo o que queremos... Ter tempo ainda para mais coisas, como algo habitual e constante, é maçador, cansa, satura. Não porque nos obriga a ter ideias de como devemos ocupar o tempo, mas porque no fim não fizemos nada de útil. E não fazer nada de útil é meio caminho andado para a nossa passagem aqui pela Terra ter sido em vão!

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Mais que um direito, um dever!


Confesso que, apesar de eu não me importar, os portugueses levaram, este ano, com uma overdose de política. Ora foram as eleições europeias, ora foram as legistavias e, quando todos pensavam que tinham terminado, eis que chegaram as eleições autárquicas. E um referendozito ainda este ano, não?!
Mas, independentemente de as pessoas estarem fartas, de porem as mãos à cabeça a dizer que já chega (em jeito de desespero) ou de mudarem de canal assim que um político fala, ir votar é mais do que fazer um favor aos concorrentes ao poder. Vai muito mais além do presente: é o respeito pelo passado!
Os nossos pais, avós e até mesmo os nossos bisavós, a par de muitos portugueses, viveram momentos de angústia, de represálias, de medo. Uns lutaram, outros submeteram-se. Uns foram castigados, outros calaram-se. Uns morreram e outros venceram. E, apesar de tudo isto, nunca desistiram, até mesmo aqueles que permaneceram, dia após dia, a tentar contrariar, em silêncio, o destino de um país. Foi graças a eles que hoje podemos falar livremente, opinar acerca do que queremos, andar sem medo. E, acima de tudo, foi graças a eles que hoje podemos votar, ser parte de um povo que pode decidir o destino do seu país.
A verdade é que há quem não queira saber disso, que pouco lhe importa se votar é um direito ou um dever. Muitos não estão interessados em honrar quem lutou para que a nossa vontade tivesse valor. Sim, porque votar é muito mais que pôr uma cruz num boletim de voto! E muitos deixam-se levar pela passividade de ficar em casa num dia em que todos os cidadãos maiores e vacinados são chamados para ditar a sua vontade. E aqueles que não o fazem, seja por comodismo ou ignorância, dias depois já estão a falar, indignados, do que vai mal neste país. Típico de um povo que está mais preocupado em dizer mal do que a fazer os possíveis para que tudo fique bem.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Casa às costas


Parece haver uma fase certa na vida de uma pessoa em que tem que mudar, quase radicalmente, de ares. Muda de vida (ao jeito de "Humanos") e de casa, também. Parece que a altura certa é antes de se chegar aos 20 anos (para os sortudos!), quando fica para trás o Secundário com a mochila às costas. Agora, a mochila dá lugar à casa, pois é altura de sair de casa para quem decide prosseguir nos estudos (alguns, mais sortudos - ou não! -, ficam pelo seu habitual lar).
E, nesta fase de caracol (não que se ande mais devagar), é obrigatório encontrar um novo lar, levar para lá muitas das coisas que nos pertence, habituarmo-nos a mais um espaço novo na nova vida. Temos que dar uma nova identidade ao que parece estar à nossa espera. Compramos algumas coisas e esperamos que dêem um pouco de nós.
É estranho mudar várias vezes de casa em poucos anos... habituamo-nos a um determinado lar e, quando damos por nós, já estamos a ir para outro. Se no início era excitante porque essa mudança vinha acompanhada de uma nova fase, de uma nova etapa, de uma nova aventura, depois essa "chama" apaga-se porque nem sempre há novos momentos. E aí ficamos saudosistas a olhar para a última casa por onde passámos.
Há uma altura certa para criarmos o nosso espaço e que esse seja a longo prazo? Quando compraremos um determinado objecto que se adeqúe a um lar específico e não que sirva para todos os lares em que teremos que passar? E quem consegue responder a estas questões? Até lá, vivamos como salteadores, como ciganos sem barraca em terreno fixo!